7 de junho de 2014

Parei pra viver

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado


  Eu poderia postar qualquer coisa aqui, seria uma novidade. Poderia dissecar minha alma atrás de algo de valor que fizesse alguém refletir sobre a si próprio. Mas não. Realidade infeliz, eu só tenho algo a dizer quando estou me sentindo incompleta. E não tenho estado. Mas a luta de não se despedaçar, de buscar levar uma vida mais equilibrada, sem tanto drama, eu posso compartilhar, ainda que, admito, não seja tão encantadora.
  Em janeiro deste ano resolvi parar de pensar pra viver¹, me dei conta de que todas aquelas neuroses, aqueles sofrimentos inúteis, aquela aflição descompensada, não estava me levando à algum lugar, não estava me levando, estava me deixando isolada num canto do qual eu nem gostava. Resolvi me livrar! Não foi fácil. Anos dividindo minha vida com aquelas ideias, minhas ideias. Foi bem sofrido mas a desilusão me levou a ter gana. Mandei todas as antigas histórias pastar, e resolvi conhecer novas.
  Confesso, percorri caminhos muito confusos, estive com pessoas com as quais nunca imaginei compartilhar algo, passei a admitir bem pouco critério, os meus demoraram para me reconhecer sob aquela minha nova eu, teve muito questionamento, muito olhar desconfiado sobre o que eu estava tramando. Eu só queria não querer nada. E não quis. Foram três meses de pura e total liberdade. Eu nunca fui tão feliz. Nunca fui tão aquela pessoa que eu sempre disse ser, a que não se importa nem um pouco com o que os outros acham. Me encantei por essa vida. Pelas pessoas com quem ela estava me levando a estar. Me apaixonei por ela. Tanto, que fiquei mais desinibida, fui sem perguntar pra onde, sem me preocupar em como e quando voltar, só indo. Em um momento, me dei conta de que já tinha andado demais.
  Eu não precisava parar, eu nem queria parar, eu estava deixando as coisas serem como deviam ser, no entanto, tenho que admitir, essa vida de me deixar levar foi bem cansativa. Ela me levou à muitas pessoas, e não magoar muitas pessoas, é de longe a coisa mais difícil pela qual passei nessa brincadeira. E, considerando a minha nada mole vida, ter disposição e sorriso no rosto para encarar toda novidade que aparecia, não era fácil. Era prazeroso, mas não fácil. Por isso parei.
  E como sempre acontece na vida das outras pessoas, e não na nossa, a estática chegou no momento certo. Eu passei meu tempo com pessoas incríveis no início desse ano, sem planos e tudo o mais - afinal, "Iaiá, se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade"² - mas quando eu parei, esbarrei em alguém que não me fez voltar a ser a louca psicótica que pensa demais, mas que faz com que eu consiga ainda ser esse meu eu novo.
  Esse eu descomplicado, quer dizer, um pouco menos complicado, só quer agradecer a vida por tê-la mostrado que as coisas são mais óbvias do que parece, que tentar driblar as pessoas e se obrigar a não se envolver pode ser mais doloroso do que o contrário. E que, como as minhas amigas me ensinaram essa semana, pensar positivo pode trazer resultados maravilhosos. Que venha mais um semestre incrível ao lado de pessoas incríveis!

¹Citação da música Vou Mandar Pastar da banda 5 a seco.
²Trecho da música Retrato pra Iaiá da banda Los Hermanos.


"Vou mandar pastar
7 de março de 2014

Enquanto eu não te encontro

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

                         Capelli in fiori de Jiane Maschette

Quando eu te encontrar, eu vou saber fazer um buraco ao lado da minha cama aonde eu possar jogar as minhas frustrações.
Quando eu te encontrar, vou caminhar leve por aí, sem precisar arrastar o peso enrolado às minhas pernas.
Quando eu te encontrar, vou dançar sem dor nos meus pés descalços, cantar sem rouquidão na minha voz cansada, sorrir sem pensar nas minhas histórias tristes.
Quando eu te encontrar, vou achar que encontrei tudo.
Que todas as coisas estão resolvidas.
Que todo o medo fugiu e que não corro mais risco que ele me encontre.
Quando eu te encontrar, as cores, a luz, o cintilar, o som, o arrepio, a moleza, vão chegar.
Só que, só quando eu te encontrar.
Mas quando eu te encontrar, vou fazer valer todos esses anos de silêncio, toda essa falta de fala, toda a perda de contato, todo o não roçar das mãos.
Vou te fazer morar no meu colo, viver do ar que eu respiro, amar do amor que eu construí.
Só quando eu te encontrar.
Porque quando eu te encontrar terei me encontrado, e você, a si mesmo.
É dura a procura. É duro o não encontrar.
Mas quando eu te encontrar, só quanto eu te encontrar, porque eu vou ter te encontrado, vou descansar na paz.

21 de janeiro de 2014

E não é que desandou?

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

Escrito em setembro de 2013.

  OK, eu já cheguei à esta conclusão antes mas não é que aconteceu de novo? Existem receitas que foram feitas para certas pessoas praticarem e existem pessoas que simplesmente não conseguem seguir a receita.
  Essa é uma delas. Eu só não consigo fazer dar certo. Tentei uma vez, isso faz tempo, coloquei açúcar demais, palavras demais, vontade demais, excesso. Tentei outra vez, um tempo depois, e foi açúcar de menos, palavras de menos, vontade de menos, falta. Resolvi não tentar mais, eu não conseguiria nunca transformar os ingredientes que eu tinha em mãos nos ingredientes necessários à massa, eu não nasci para preparar esta receita, ponto. Brinco com receitas parecidas mas não me atrevo a chamar pelo nome do tal prato.
  Agora, cansada de outras receitas, resolvi tentar novamente, certa de que se equilibrasse meus ingredientes, se conseguisse fazer tudo, não como manda a receita mas como eu a sinto, daria certo. Achei por um momento que estava tendo sucesso, até o ponto que, talvez por excesso de tentar, me excedi. Meus ingredientes estavam mais que perfeitos, mas eu não consegui fazer deles um bolo bonito, uma refeição apetitosa, falhei. Talvez eu não deva cozinhar mesmo. Ainda que para a maioria esse tal prato seja algo natural e simples de fazer acontecer, não é, para mim.
  Hoje está doendo um pouco aqui, afinal sempre me faltou impulso para arriscar perante os meus desejos, e quando me sobrou, alguma coisa desandou e o que eu achava que estava acontecendo, acabou.
  Que sina essa de fazer tudo acabar.

  Eu só queria um "oi" hoje. Sabe? Um "boa noite", ler você se referindo a mim como "sua mineirinha", ou algo do tipo. Ler você contando seus detalhes diários, provavelmente a coisa mais fofa em você, ou eu te contar os meus, nunca tão interessantes. Tô sentindo falta até do trânsito que me fazia buscar você. Quero você reclamando do frio, da neve, da distância. Que saco você sumir assim da minha vida. Que saco não ter suas palavras comigo. Que saco você não ser meu agora. Quero alguém (você) me chamando de "tu" e escrevendo e/ou falando de um jeito que só você fala comigo. Estou cansada dessa tua falta. Aparece logo pra mim.
17 de janeiro de 2014

"Se eu não posso ter, fico imaginando..."

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

  Aquela foto piscando na minha frente, aquela foto se acendendo ainda que meus olhos estivessem fechados, aquela foto girando, girando, entrando em todos os cantos de mim. Transformou, agiu, com toda a acidez que se precisa ter para corroer, mordeu, matou. Ainda que a dor não seja nova, ainda que seja esperada, não estou preparada. Preparada para te deixar ir e me deixar vazia como uma bola que criança não quer mais brincar. Preparada para perder o eu que te quer mesmo com todas as coisas que incomodam, para perder o eu que quer te querer sempre.
  Então engulo - seco, doído, ardente - e continuo. Porque sempre há caminhos para se continuar. Ainda que sem você. Ainda que sem a sua nuca que brilha pra mim. Ainda que sem a sua barba que só me lembra que eu fiz alguma coisa em você. Que eu fui alguma coisa, algum dia, em algum breve momento. Então eu vejo você levantando a sua barba e me puxando com cuidado de debaixo dela. Então eu me vejo desgrudando do seu pescoço e pulando em queda livre. Um pulo bem maior do que eu dei para subir. A questão é que você não sabe quantos pulos eu deixei de dar nesses 18 meses, você não sabe quantos pulos eu quis dar durante todo esse tempo. Você não sabe, e quando diz que não sabe dar esse tipo de pulo, eu quero entender, mesmo, porque até me parece possível ser verdade.
  A questão é que eu escolhi acabar, eu escolhi encerrar, porque isso nunca ia acontecer. Isso tudo, talvez tudo mesmo, só aconteceu pra você durante pouco tempo, e só aconteceu pra mim depois de muito tempo, talvez tempo demais, quando eu já tinha perdido a deixa de fazer você tentar. E como tudo tem acontecido a base da gota d'água, deixo esta ser a última gota do que eu sinto de verdade por você. A partir de hoje, vai ser outra coisa, só vou ser outra coisa, só vou sentir outra coisa, só vou olhar outra pessoa, e só vou ser essa nova pessoa, que não te olha do mesmo jeito e que não te quer mais. Vou estar sempre por perto, porque eu não vou saber ser longe, vou estar sempre te querendo bem, porque eu não vou saber ser sem te querer, vou estar sempre pronta pra falar com você, porque eu não vou saber ser sem te ouvir, mas não vou ser mais quem eu quero ser com você, porque eu preciso não ser e eu preciso não querer ser.
  Lá no fundo, onde nem eu consigo entrar, há um espaço que é só seu, e ainda que as coisas mudem, como vão mudar, e eu vou deixar, sempre vai te caber lá, mesmo que para quem veja isso seja impossível.

"Ela andou e eu fiquei ali
Ou será que fui eu que dali mudei
Com uns passos mudos
De uma reticência?
Ela me olhou bem
Quem sabe com ela
Eu teria achado
O que sempre me faltava
Cores, colagens, sons, emoção!
Se eu não posso ser
Fico imaginando" 
                Ali - Nando Reis
2 de outubro de 2013

Sim, eu sou feminista

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado


Texto escrito no período de março à outubro

   Eu li o livro da (maravilhosa, linda e hilária) Caitlin Moran, livro este que me foi indicado pela revista mais parecida comigo, ou seja, pequena, inteligente, desbocada e linda, da mídia brasileira. Enfim, a conclusão a qual eu cheguei antes de terminar o livro é a que dá nome ao título dessa postagem-blá-blá: Eu sou (super-hiper-mega-giga) feminista. E sim, eu sou feminista e não a louca que vem no imaginário das pessoas quando elas ouvem essa palavra. Eu sou mulher, quero poder falar por mim mesma, usar minha inteligência trabalhando e ganhando o mesmo que qualquer homem que exerça a mesma atividade que eu - e  tenha a mesma inteligência que eu, por favor! -, quero decidir o que fazer com o meu corpo, com que tipo de roupas cobri-lo, quero decidir se quero, ou não, ser mãe, quero decidir se faço sexo, a hora em que o faço e com quem (e quantos) eu faço. É isso, quero ser dona da minha vida de mulher. Não, eu não quero ser um homem, eu quero poder fazer tudo o que eles fazem sem que ninguém se ache no direito de questionar, e ser feliz com isso.
   Quando eu me tornei feminista? Bem, na época eu não sabia o que era feminismo, muito menos que eu o era, mas eu me lembro bem. Eu estava na quinta série, era muito magra, muito inteligente, tinha muito problema de visão, logo usava um óculos que me deixava muito feia, tinha pernas muito parecidas com palitos, era muito baixa, ou seja, muito estranha, e os meninos já sabiam disso. As meninas também. E assim, eu era o foco de todas as piadas da sala, todos os meninos caçoavam de mim, sem trégua, as meninas não, porém elas sabiam lá no fundo que não queriam se parecer comigo, eu sei.
   Faço questão de não lembrar detalhes sobre as piadas, exceto alguns casos, como o do garoto que me chamava de "amendoim" porque em uma aula de inglês a professora me chamou usando a pronúncia inglesa do meu nome. Acredito eu que hoje ele não deve mais lembrar o meu nome de tanto que repetiu "amendoim" nos 3 anos seguintes.
   Eu me perguntava sempre o motivo de eles não desejarem a minha amizade, já que eu sempre estava disposta a ajudar, a fazer trabalhos com eles, mas a resposta não era tão óbvia. Alguns meses depois se tornou. Eles preferiam as outras garotas porque elas não os desafiavam, os professores não os comparavam com elas, elas não os faziam se sentir menores, não eram uma ameaça, ou o centro das atenções. Elas eram apenas um corpo com um par de pernas usando saias curtas, só. Era assim que eles viam todas elas, exceto eu, já que mesmo que eu usasse saias, minhas pernas nunca chamariam atenção - e, é assim até hoje. Eu era a garota que os desafiavam em disputas de busca de palavras no dicionário, e ganhava. Eu era a garota que tinha as maiores notas, e todos os elogios. Eu sabia mais, era mais falada, era a que mais impressionava, não que eu estivesse me sentindo melhor por isso na época, muito menos hoje. Mas eu era uma garota, e as garotas não podiam ser assim tão boas, não melhores que eles, e por isso eles me colocavam para baixo. 
   Em algum momento eu percebi que quanto mais eu sofresse com as brincadeiras deles, quanto mais eu chorasse, quanto mais eu abaixasse a cabeça e aceitasse que eles podiam falar e agir daquele jeito comigo, mais eles o fariam e se sentiriam vitoriosos, e assim, eu me libertei. Falei pra quem quisesse ouvir que o que eles pensavam sobre mim não mudava nada, eu era aquela garota, sempre seria, e tinha orgulho de ser. Eles poderiam falar o que quisessem, juntar mais uns 30 garotos e usarem qualquer tipo de tática, eu não cairia. Eu era tão boa quantos eles, ou melhor, e eles tinham medo de mim - talvez nem tanto, mas eles não sabiam que eu era inofensiva - por eu ser quem eu queria e não ficar tentando mudar para me adequar.
   Eles me aceitaram, me chamaram para o grupinho e eu passei a ser "um deles", de saia. Eles viram que eu tinha coragem, que eu merecia respeito e que eles me deviam isso. Se tornaram meus amigos. Alguns deles muito amigos, até hoje.
   E naquele dia eu aprendi comigo mesma um dos meus maiores valores e, na minha opinião, adquiri uma das minhas melhores qualidades, eu me aceitei, e me amei do jeito que eu sou sem me preocupar com o que pensam de mim. Mulher, de saia ou short, de cabelos longos ou curtos, com uma nota 10 ou uma decepção amorosa. Aos poucos, fui melhorando o meu lado feminista e me aceitando mais, ao ponto que chego hoje a ser tão feliz sendo eu. A questão é: Eu não digo que sofri bullyng quando lembro dessas histórias, e sim que eu conheci o machismo na minha pele, e desde essa época, eu luto para que as coisas sejam diferentes ao meu redor, luto para eu ser boa e tão boa, não para que as pessoas se esqueçam que eu sou mulher, e sim para que isso seja a primeira coisa que lhes venha à cabeça. 
   Há 9 anos, eu rejeito piadas machistas, brigo com quem diga que mulher dirige mal - mesmo que existam umas que sim -, sonho alto, convenço a todos a terem mais respeito por nós, e crio uma guerra quando se torna necessário, porém hoje, eu sei, que quanto mais eu gritar mais não vão me ouvir, minhas atitudes são muito mais claras. Há 9 anos eu sou feminista, com prazer.