11 de junho de 2014

Sobre um Convento ser a minha casa

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado


Foto da Igreja de Santo Antônio no Convento de Santo Antônio, Carioca, Rio de Janeiro.

  Hoje eu simplesmente não conseguiria dormir se não escrevesse sobre esse lugar.
  O conheci em 2009, quando em um passeio pelo Centro da cidade, eu e mais duas amigas, corremos enlouquecidamente toda a rua Uruguaiana para encontrar um local para que uma delas pudesse se confessar. Não que fosse ela uma grande pecadora. Não que estivéssemos atrasadas. Éramos adolescentes.
  Me encantei pelo lugar no segundo segundo em que estive lá. Escondido. Imponente. Talvez eu tenha me apaixonado pelo lugar por conta de Santo Antônio - meu amigo de longa data -, talvez porque esteja sendo restaurado desde que o conheço, e tenha eu grande fissura por coisas inacabadas, por revolução, por restauração, talvez ainda por conta do folheto que li naquele dia, ou ainda, por conta da resposta do frei às perguntas da minha amiga. Deustino. Não sei. Me apaixonei. E desde então, tem sido este o meu lugar.
  Lugar que eu não conheci por promessas para o bem dos que amo, lugar que eu frequento não pelos outros, mas por mim, lugar que me escolheu, e que eu escolhi pra ser o meu refúgio. No entanto, é neste lugar que sempre me sinto obrigada a ser mais. Para fazer crescer.
  Admito, atualmente a Igreja não está tão bonita quanto na foto, como eu já disse, está sendo restaurada - e até o meu casamento ela fica pronta - entretanto, é de uma paz, de uma gentileza comigo, que eu não preciso que nada nela mude para ter certeza de que lá eu posso tomar qualquer tipo de decisão.
  Porque essa Igreja não me obriga, não me cala, não me ofende, não grita comigo. Porque essa Igreja não espera mais de mim, não espera nada, nem mesmo a minha presença. Porque essa Igreja nem mesmo precisa de mim para estar ali, de pé, afinal são 400 anos. E ainda assim, sem me extrapolar em nada, faz de mim parte dela.
  E hoje, em um dia de tanta ansiedade, de tanto cansaço, de esforço, mais uma vez ela me fez enxergar. Sempre recorro a ela quando estou me sentindo mal, sozinha, indecisa, insegura, amedrontada. Sempre recebo a resposta que preciso, ainda que à primeira vista seja inadequada. Hoje não foi diferente.
  Cheguei no início da homilia, a Igreja estava cheia, trezena de Santo Antônio. Me deparei com um frei que tem quase a minha idade, mas é de sabedoria muito maior. Encarei uma homilia que foi feita pra mim, aqueles velhos tapas na cara. Uma homilia que falava sobre amor. Nós sabemos que somos amados, mas ser amado não faz de nós algo grande, o que nós fazemos com o amor que sentem por nós é que faz com que cresçamos. E assim é com o amor de Deus também. Senti por estar tão longe, mas me veio à cabeça que nessa época do ano já estive longe muitas vezes - sexta, dia 13, é dia de Santo Antônio - e que Santo Antônio sempre me fez voltar. Não para pedir namorado. Não para pedir. Mas para receber amor. Cuidado. Sei lá. E hoje foi exatamente assim. Quando eu estava ajoelhada no altar, fazendo as minhas orações de quando preciso ser puxada pelos cabelos e colocada no lugar, Antônio estava me abraçando.
  Pode parecer imaginativo, e em muito o é, mas eu não me sinto perdida quando estou no Largo da Carioca olhando para as rachaduras nas cerâmicas que recobrem o chão da Igreja, essas rachaduras me direcionam muito mais à minha espiritualidade do que grandes sermões, difícil de entender, mas quando se ama algo ou alguém, até as rachaduras são boas e te fazem lembrar que você tem sorte, sorte de ser aceito, de ser compreendido, de ser perdoado. Então, nesse 13 de junho, não existe nenhum lugar que eu queira estar mais do que no Convento, e eu vou estar. Para agradecer o carinho e todas as respostas implícitas naquelas paredes com pedras a mostra. Eu e você estamos evoluindo juntos Convento, e espero estarmos bem para vermos o amadurecimento um do outro.



7 de junho de 2014

Parei pra viver

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado


  Eu poderia postar qualquer coisa aqui, seria uma novidade. Poderia dissecar minha alma atrás de algo de valor que fizesse alguém refletir sobre a si próprio. Mas não. Realidade infeliz, eu só tenho algo a dizer quando estou me sentindo incompleta. E não tenho estado. Mas a luta de não se despedaçar, de buscar levar uma vida mais equilibrada, sem tanto drama, eu posso compartilhar, ainda que, admito, não seja tão encantadora.
  Em janeiro deste ano resolvi parar de pensar pra viver¹, me dei conta de que todas aquelas neuroses, aqueles sofrimentos inúteis, aquela aflição descompensada, não estava me levando à algum lugar, não estava me levando, estava me deixando isolada num canto do qual eu nem gostava. Resolvi me livrar! Não foi fácil. Anos dividindo minha vida com aquelas ideias, minhas ideias. Foi bem sofrido mas a desilusão me levou a ter gana. Mandei todas as antigas histórias pastar, e resolvi conhecer novas.
  Confesso, percorri caminhos muito confusos, estive com pessoas com as quais nunca imaginei compartilhar algo, passei a admitir bem pouco critério, os meus demoraram para me reconhecer sob aquela minha nova eu, teve muito questionamento, muito olhar desconfiado sobre o que eu estava tramando. Eu só queria não querer nada. E não quis. Foram três meses de pura e total liberdade. Eu nunca fui tão feliz. Nunca fui tão aquela pessoa que eu sempre disse ser, a que não se importa nem um pouco com o que os outros acham. Me encantei por essa vida. Pelas pessoas com quem ela estava me levando a estar. Me apaixonei por ela. Tanto, que fiquei mais desinibida, fui sem perguntar pra onde, sem me preocupar em como e quando voltar, só indo. Em um momento, me dei conta de que já tinha andado demais.
  Eu não precisava parar, eu nem queria parar, eu estava deixando as coisas serem como deviam ser, no entanto, tenho que admitir, essa vida de me deixar levar foi bem cansativa. Ela me levou à muitas pessoas, e não magoar muitas pessoas, é de longe a coisa mais difícil pela qual passei nessa brincadeira. E, considerando a minha nada mole vida, ter disposição e sorriso no rosto para encarar toda novidade que aparecia, não era fácil. Era prazeroso, mas não fácil. Por isso parei.
  E como sempre acontece na vida das outras pessoas, e não na nossa, a estática chegou no momento certo. Eu passei meu tempo com pessoas incríveis no início desse ano, sem planos e tudo o mais - afinal, "Iaiá, se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade"² - mas quando eu parei, esbarrei em alguém que não me fez voltar a ser a louca psicótica que pensa demais, mas que faz com que eu consiga ainda ser esse meu eu novo.
  Esse eu descomplicado, quer dizer, um pouco menos complicado, só quer agradecer a vida por tê-la mostrado que as coisas são mais óbvias do que parece, que tentar driblar as pessoas e se obrigar a não se envolver pode ser mais doloroso do que o contrário. E que, como as minhas amigas me ensinaram essa semana, pensar positivo pode trazer resultados maravilhosos. Que venha mais um semestre incrível ao lado de pessoas incríveis!

¹Citação da música Vou Mandar Pastar da banda 5 a seco.
²Trecho da música Retrato pra Iaiá da banda Los Hermanos.


"Vou mandar pastar
7 de março de 2014

Enquanto eu não te encontro

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

                         Capelli in fiori de Jiane Maschette

Quando eu te encontrar, eu vou saber fazer um buraco ao lado da minha cama aonde eu possar jogar as minhas frustrações.
Quando eu te encontrar, vou caminhar leve por aí, sem precisar arrastar o peso enrolado às minhas pernas.
Quando eu te encontrar, vou dançar sem dor nos meus pés descalços, cantar sem rouquidão na minha voz cansada, sorrir sem pensar nas minhas histórias tristes.
Quando eu te encontrar, vou achar que encontrei tudo.
Que todas as coisas estão resolvidas.
Que todo o medo fugiu e que não corro mais risco que ele me encontre.
Quando eu te encontrar, as cores, a luz, o cintilar, o som, o arrepio, a moleza, vão chegar.
Só que, só quando eu te encontrar.
Mas quando eu te encontrar, vou fazer valer todos esses anos de silêncio, toda essa falta de fala, toda a perda de contato, todo o não roçar das mãos.
Vou te fazer morar no meu colo, viver do ar que eu respiro, amar do amor que eu construí.
Só quando eu te encontrar.
Porque quando eu te encontrar terei me encontrado, e você, a si mesmo.
É dura a procura. É duro o não encontrar.
Mas quando eu te encontrar, só quanto eu te encontrar, porque eu vou ter te encontrado, vou descansar na paz.

21 de janeiro de 2014

E não é que desandou?

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

Escrito em setembro de 2013.

  OK, eu já cheguei à esta conclusão antes mas não é que aconteceu de novo? Existem receitas que foram feitas para certas pessoas praticarem e existem pessoas que simplesmente não conseguem seguir a receita.
  Essa é uma delas. Eu só não consigo fazer dar certo. Tentei uma vez, isso faz tempo, coloquei açúcar demais, palavras demais, vontade demais, excesso. Tentei outra vez, um tempo depois, e foi açúcar de menos, palavras de menos, vontade de menos, falta. Resolvi não tentar mais, eu não conseguiria nunca transformar os ingredientes que eu tinha em mãos nos ingredientes necessários à massa, eu não nasci para preparar esta receita, ponto. Brinco com receitas parecidas mas não me atrevo a chamar pelo nome do tal prato.
  Agora, cansada de outras receitas, resolvi tentar novamente, certa de que se equilibrasse meus ingredientes, se conseguisse fazer tudo, não como manda a receita mas como eu a sinto, daria certo. Achei por um momento que estava tendo sucesso, até o ponto que, talvez por excesso de tentar, me excedi. Meus ingredientes estavam mais que perfeitos, mas eu não consegui fazer deles um bolo bonito, uma refeição apetitosa, falhei. Talvez eu não deva cozinhar mesmo. Ainda que para a maioria esse tal prato seja algo natural e simples de fazer acontecer, não é, para mim.
  Hoje está doendo um pouco aqui, afinal sempre me faltou impulso para arriscar perante os meus desejos, e quando me sobrou, alguma coisa desandou e o que eu achava que estava acontecendo, acabou.
  Que sina essa de fazer tudo acabar.

  Eu só queria um "oi" hoje. Sabe? Um "boa noite", ler você se referindo a mim como "sua mineirinha", ou algo do tipo. Ler você contando seus detalhes diários, provavelmente a coisa mais fofa em você, ou eu te contar os meus, nunca tão interessantes. Tô sentindo falta até do trânsito que me fazia buscar você. Quero você reclamando do frio, da neve, da distância. Que saco você sumir assim da minha vida. Que saco não ter suas palavras comigo. Que saco você não ser meu agora. Quero alguém (você) me chamando de "tu" e escrevendo e/ou falando de um jeito que só você fala comigo. Estou cansada dessa tua falta. Aparece logo pra mim.
17 de janeiro de 2014

"Se eu não posso ter, fico imaginando..."

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

  Aquela foto piscando na minha frente, aquela foto se acendendo ainda que meus olhos estivessem fechados, aquela foto girando, girando, entrando em todos os cantos de mim. Transformou, agiu, com toda a acidez que se precisa ter para corroer, mordeu, matou. Ainda que a dor não seja nova, ainda que seja esperada, não estou preparada. Preparada para te deixar ir e me deixar vazia como uma bola que criança não quer mais brincar. Preparada para perder o eu que te quer mesmo com todas as coisas que incomodam, para perder o eu que quer te querer sempre.
  Então engulo - seco, doído, ardente - e continuo. Porque sempre há caminhos para se continuar. Ainda que sem você. Ainda que sem a sua nuca que brilha pra mim. Ainda que sem a sua barba que só me lembra que eu fiz alguma coisa em você. Que eu fui alguma coisa, algum dia, em algum breve momento. Então eu vejo você levantando a sua barba e me puxando com cuidado de debaixo dela. Então eu me vejo desgrudando do seu pescoço e pulando em queda livre. Um pulo bem maior do que eu dei para subir. A questão é que você não sabe quantos pulos eu deixei de dar nesses 18 meses, você não sabe quantos pulos eu quis dar durante todo esse tempo. Você não sabe, e quando diz que não sabe dar esse tipo de pulo, eu quero entender, mesmo, porque até me parece possível ser verdade.
  A questão é que eu escolhi acabar, eu escolhi encerrar, porque isso nunca ia acontecer. Isso tudo, talvez tudo mesmo, só aconteceu pra você durante pouco tempo, e só aconteceu pra mim depois de muito tempo, talvez tempo demais, quando eu já tinha perdido a deixa de fazer você tentar. E como tudo tem acontecido a base da gota d'água, deixo esta ser a última gota do que eu sinto de verdade por você. A partir de hoje, vai ser outra coisa, só vou ser outra coisa, só vou sentir outra coisa, só vou olhar outra pessoa, e só vou ser essa nova pessoa, que não te olha do mesmo jeito e que não te quer mais. Vou estar sempre por perto, porque eu não vou saber ser longe, vou estar sempre te querendo bem, porque eu não vou saber ser sem te querer, vou estar sempre pronta pra falar com você, porque eu não vou saber ser sem te ouvir, mas não vou ser mais quem eu quero ser com você, porque eu preciso não ser e eu preciso não querer ser.
  Lá no fundo, onde nem eu consigo entrar, há um espaço que é só seu, e ainda que as coisas mudem, como vão mudar, e eu vou deixar, sempre vai te caber lá, mesmo que para quem veja isso seja impossível.

"Ela andou e eu fiquei ali
Ou será que fui eu que dali mudei
Com uns passos mudos
De uma reticência?
Ela me olhou bem
Quem sabe com ela
Eu teria achado
O que sempre me faltava
Cores, colagens, sons, emoção!
Se eu não posso ser
Fico imaginando" 
                Ali - Nando Reis