. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado
Escrito em setembro de 2013.
OK, eu já cheguei à esta conclusão antes mas não é que aconteceu de novo? Existem receitas que foram feitas para certas pessoas praticarem e existem pessoas que simplesmente não conseguem seguir a receita.
Essa é uma delas. Eu só não consigo fazer dar certo. Tentei uma vez, isso faz tempo, coloquei açúcar demais, palavras demais, vontade demais, excesso. Tentei outra vez, um tempo depois, e foi açúcar de menos, palavras de menos, vontade de menos, falta. Resolvi não tentar mais, eu não conseguiria nunca transformar os ingredientes que eu tinha em mãos nos ingredientes necessários à massa, eu não nasci para preparar esta receita, ponto. Brinco com receitas parecidas mas não me atrevo a chamar pelo nome do tal prato.
Agora, cansada de outras receitas, resolvi tentar novamente, certa de que se equilibrasse meus ingredientes, se conseguisse fazer tudo, não como manda a receita mas como eu a sinto, daria certo. Achei por um momento que estava tendo sucesso, até o ponto que, talvez por excesso de tentar, me excedi. Meus ingredientes estavam mais que perfeitos, mas eu não consegui fazer deles um bolo bonito, uma refeição apetitosa, falhei. Talvez eu não deva cozinhar mesmo. Ainda que para a maioria esse tal prato seja algo natural e simples de fazer acontecer, não é, para mim.
Hoje está doendo um pouco aqui, afinal sempre me faltou impulso para arriscar perante os meus desejos, e quando me sobrou, alguma coisa desandou e o que eu achava que estava acontecendo, acabou.
Que sina essa de fazer tudo acabar.
Eu só queria um "oi" hoje. Sabe? Um "boa noite", ler você se referindo a mim como "sua mineirinha", ou algo do tipo. Ler você contando seus detalhes diários, provavelmente a coisa mais fofa em você, ou eu te contar os meus, nunca tão interessantes. Tô sentindo falta até do trânsito que me fazia buscar você. Quero você reclamando do frio, da neve, da distância. Que saco você sumir assim da minha vida. Que saco não ter suas palavras comigo. Que saco você não ser meu agora. Quero alguém (você) me chamando de "tu" e escrevendo e/ou falando de um jeito que só você fala comigo. Estou cansada dessa tua falta. Aparece logo pra mim.
21 de janeiro de 2014
17 de janeiro de 2014
"Se eu não posso ter, fico imaginando..."
. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado
Aquela foto piscando na minha frente, aquela foto se acendendo ainda que meus olhos estivessem fechados, aquela foto girando, girando, entrando em todos os cantos de mim. Transformou, agiu, com toda a acidez que se precisa ter para corroer, mordeu, matou. Ainda que a dor não seja nova, ainda que seja esperada, não estou preparada. Preparada para te deixar ir e me deixar vazia como uma bola que criança não quer mais brincar. Preparada para perder o eu que te quer mesmo com todas as coisas que incomodam, para perder o eu que quer te querer sempre.
Então engulo - seco, doído, ardente - e continuo. Porque sempre há caminhos para se continuar. Ainda que sem você. Ainda que sem a sua nuca que brilha pra mim. Ainda que sem a sua barba que só me lembra que eu fiz alguma coisa em você. Que eu fui alguma coisa, algum dia, em algum breve momento. Então eu vejo você levantando a sua barba e me puxando com cuidado de debaixo dela. Então eu me vejo desgrudando do seu pescoço e pulando em queda livre. Um pulo bem maior do que eu dei para subir. A questão é que você não sabe quantos pulos eu deixei de dar nesses 18 meses, você não sabe quantos pulos eu quis dar durante todo esse tempo. Você não sabe, e quando diz que não sabe dar esse tipo de pulo, eu quero entender, mesmo, porque até me parece possível ser verdade.
A questão é que eu escolhi acabar, eu escolhi encerrar, porque isso nunca ia acontecer. Isso tudo, talvez tudo mesmo, só aconteceu pra você durante pouco tempo, e só aconteceu pra mim depois de muito tempo, talvez tempo demais, quando eu já tinha perdido a deixa de fazer você tentar. E como tudo tem acontecido a base da gota d'água, deixo esta ser a última gota do que eu sinto de verdade por você. A partir de hoje, vai ser outra coisa, só vou ser outra coisa, só vou sentir outra coisa, só vou olhar outra pessoa, e só vou ser essa nova pessoa, que não te olha do mesmo jeito e que não te quer mais. Vou estar sempre por perto, porque eu não vou saber ser longe, vou estar sempre te querendo bem, porque eu não vou saber ser sem te querer, vou estar sempre pronta pra falar com você, porque eu não vou saber ser sem te ouvir, mas não vou ser mais quem eu quero ser com você, porque eu preciso não ser e eu preciso não querer ser.
Lá no fundo, onde nem eu consigo entrar, há um espaço que é só seu, e ainda que as coisas mudem, como vão mudar, e eu vou deixar, sempre vai te caber lá, mesmo que para quem veja isso seja impossível.
"Ela andou e eu fiquei ali
Ou será que fui eu que dali mudei
Com uns passos mudos
De uma reticência?
Ela me olhou bem
Quem sabe com ela
Eu teria achado
O que sempre me faltava
Cores, colagens, sons, emoção!
Se eu não posso ser
Fico imaginando"
Ali - Nando Reis
Aquela foto piscando na minha frente, aquela foto se acendendo ainda que meus olhos estivessem fechados, aquela foto girando, girando, entrando em todos os cantos de mim. Transformou, agiu, com toda a acidez que se precisa ter para corroer, mordeu, matou. Ainda que a dor não seja nova, ainda que seja esperada, não estou preparada. Preparada para te deixar ir e me deixar vazia como uma bola que criança não quer mais brincar. Preparada para perder o eu que te quer mesmo com todas as coisas que incomodam, para perder o eu que quer te querer sempre.
Então engulo - seco, doído, ardente - e continuo. Porque sempre há caminhos para se continuar. Ainda que sem você. Ainda que sem a sua nuca que brilha pra mim. Ainda que sem a sua barba que só me lembra que eu fiz alguma coisa em você. Que eu fui alguma coisa, algum dia, em algum breve momento. Então eu vejo você levantando a sua barba e me puxando com cuidado de debaixo dela. Então eu me vejo desgrudando do seu pescoço e pulando em queda livre. Um pulo bem maior do que eu dei para subir. A questão é que você não sabe quantos pulos eu deixei de dar nesses 18 meses, você não sabe quantos pulos eu quis dar durante todo esse tempo. Você não sabe, e quando diz que não sabe dar esse tipo de pulo, eu quero entender, mesmo, porque até me parece possível ser verdade.
A questão é que eu escolhi acabar, eu escolhi encerrar, porque isso nunca ia acontecer. Isso tudo, talvez tudo mesmo, só aconteceu pra você durante pouco tempo, e só aconteceu pra mim depois de muito tempo, talvez tempo demais, quando eu já tinha perdido a deixa de fazer você tentar. E como tudo tem acontecido a base da gota d'água, deixo esta ser a última gota do que eu sinto de verdade por você. A partir de hoje, vai ser outra coisa, só vou ser outra coisa, só vou sentir outra coisa, só vou olhar outra pessoa, e só vou ser essa nova pessoa, que não te olha do mesmo jeito e que não te quer mais. Vou estar sempre por perto, porque eu não vou saber ser longe, vou estar sempre te querendo bem, porque eu não vou saber ser sem te querer, vou estar sempre pronta pra falar com você, porque eu não vou saber ser sem te ouvir, mas não vou ser mais quem eu quero ser com você, porque eu preciso não ser e eu preciso não querer ser.
Lá no fundo, onde nem eu consigo entrar, há um espaço que é só seu, e ainda que as coisas mudem, como vão mudar, e eu vou deixar, sempre vai te caber lá, mesmo que para quem veja isso seja impossível.
"Ela andou e eu fiquei ali
Ou será que fui eu que dali mudei
Com uns passos mudos
De uma reticência?
Ela me olhou bem
Quem sabe com ela
Eu teria achado
O que sempre me faltava
Cores, colagens, sons, emoção!
Se eu não posso ser
Fico imaginando"
Ali - Nando Reis
2 de outubro de 2013
Sim, eu sou feminista
. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado
Texto escrito no período de março à outubro
Eu li o livro da (maravilhosa, linda e hilária) Caitlin Moran, livro este que me foi indicado pela revista mais parecida comigo, ou seja, pequena, inteligente, desbocada e linda, da mídia brasileira. Enfim, a conclusão a qual eu cheguei antes de terminar o livro é a que dá nome ao título dessa postagem-blá-blá: Eu sou (super-hiper-mega-giga) feminista. E sim, eu sou feminista e não a louca que vem no imaginário das pessoas quando elas ouvem essa palavra. Eu sou mulher, quero poder falar por mim mesma, usar minha inteligência trabalhando e ganhando o mesmo que qualquer homem que exerça a mesma atividade que eu - e tenha a mesma inteligência que eu, por favor! -, quero decidir o que fazer com o meu corpo, com que tipo de roupas cobri-lo, quero decidir se quero, ou não, ser mãe, quero decidir se faço sexo, a hora em que o faço e com quem (e quantos) eu faço. É isso, quero ser dona da minha vida de mulher. Não, eu não quero ser um homem, eu quero poder fazer tudo o que eles fazem sem que ninguém se ache no direito de questionar, e ser feliz com isso.
Quando eu me tornei feminista? Bem, na época eu não sabia o que era feminismo, muito menos que eu o era, mas eu me lembro bem. Eu estava na quinta série, era muito magra, muito inteligente, tinha muito problema de visão, logo usava um óculos que me deixava muito feia, tinha pernas muito parecidas com palitos, era muito baixa, ou seja, muito estranha, e os meninos já sabiam disso. As meninas também. E assim, eu era o foco de todas as piadas da sala, todos os meninos caçoavam de mim, sem trégua, as meninas não, porém elas sabiam lá no fundo que não queriam se parecer comigo, eu sei.
Faço questão de não lembrar detalhes sobre as piadas, exceto alguns casos, como o do garoto que me chamava de "amendoim" porque em uma aula de inglês a professora me chamou usando a pronúncia inglesa do meu nome. Acredito eu que hoje ele não deve mais lembrar o meu nome de tanto que repetiu "amendoim" nos 3 anos seguintes.
Eu me perguntava sempre o motivo de eles não desejarem a minha amizade, já que eu sempre estava disposta a ajudar, a fazer trabalhos com eles, mas a resposta não era tão óbvia. Alguns meses depois se tornou. Eles preferiam as outras garotas porque elas não os desafiavam, os professores não os comparavam com elas, elas não os faziam se sentir menores, não eram uma ameaça, ou o centro das atenções. Elas eram apenas um corpo com um par de pernas usando saias curtas, só. Era assim que eles viam todas elas, exceto eu, já que mesmo que eu usasse saias, minhas pernas nunca chamariam atenção - e, é assim até hoje. Eu era a garota que os desafiavam em disputas de busca de palavras no dicionário, e ganhava. Eu era a garota que tinha as maiores notas, e todos os elogios. Eu sabia mais, era mais falada, era a que mais impressionava, não que eu estivesse me sentindo melhor por isso na época, muito menos hoje. Mas eu era uma garota, e as garotas não podiam ser assim tão boas, não melhores que eles, e por isso eles me colocavam para baixo.
Em algum momento eu percebi que quanto mais eu sofresse com as brincadeiras deles, quanto mais eu chorasse, quanto mais eu abaixasse a cabeça e aceitasse que eles podiam falar e agir daquele jeito comigo, mais eles o fariam e se sentiriam vitoriosos, e assim, eu me libertei. Falei pra quem quisesse ouvir que o que eles pensavam sobre mim não mudava nada, eu era aquela garota, sempre seria, e tinha orgulho de ser. Eles poderiam falar o que quisessem, juntar mais uns 30 garotos e usarem qualquer tipo de tática, eu não cairia. Eu era tão boa quantos eles, ou melhor, e eles tinham medo de mim - talvez nem tanto, mas eles não sabiam que eu era inofensiva - por eu ser quem eu queria e não ficar tentando mudar para me adequar.
Eles me aceitaram, me chamaram para o grupinho e eu passei a ser "um deles", de saia. Eles viram que eu tinha coragem, que eu merecia respeito e que eles me deviam isso. Se tornaram meus amigos. Alguns deles muito amigos, até hoje.
E naquele dia eu aprendi comigo mesma um dos meus maiores valores e, na minha opinião, adquiri uma das minhas melhores qualidades, eu me aceitei, e me amei do jeito que eu sou sem me preocupar com o que pensam de mim. Mulher, de saia ou short, de cabelos longos ou curtos, com uma nota 10 ou uma decepção amorosa. Aos poucos, fui melhorando o meu lado feminista e me aceitando mais, ao ponto que chego hoje a ser tão feliz sendo eu. A questão é: Eu não digo que sofri bullyng quando lembro dessas histórias, e sim que eu conheci o machismo na minha pele, e desde essa época, eu luto para que as coisas sejam diferentes ao meu redor, luto para eu ser boa e tão boa, não para que as pessoas se esqueçam que eu sou mulher, e sim para que isso seja a primeira coisa que lhes venha à cabeça.
Há 9 anos, eu rejeito piadas machistas, brigo com quem diga que mulher dirige mal - mesmo que existam umas que sim -, sonho alto, convenço a todos a terem mais respeito por nós, e crio uma guerra quando se torna necessário, porém hoje, eu sei, que quanto mais eu gritar mais não vão me ouvir, minhas atitudes são muito mais claras. Há 9 anos eu sou feminista, com prazer.
21 de fevereiro de 2013
Como (não) escolher
Pode não parecer mas você também é uma escolha, além de tudo que você é para tantas pessoas, você é uma Escolha. Eu te escolhi. Entre tantas poucas opções que eu tinha em determinado tempo, você foi a minha. Isso não quer dizer que você era a opção mais bonita, mais inteligente, mais carinhosa ou a que as pessoas me aconselhavam a optar, você não era, mas foi a que eu sem me perguntar muito, decidi. Escolhi. Talvez, pode ser que essa seja a verdade mas não acredito muito nessa hipótese, eu tenha pensado que você havia me escolhido e, por isso, eu tivesse que lhe escolher também, mas hoje eu vejo que você não tinha me escolhido, você não me Escolheu...
Mas eu te Escolhi, e sim porque você era e ainda é a pessoa que eu mais quis ver ao meu lado, por mais que as outras opções parecessem de mais sucesso e mais seguras, eu quis enxergar você, buscar você, conhecer você. Eu tenho esse perfil de quem prefere o impossível. Se alguém me quer, se algo vem fácil, não é tão bom assim. Precisa ser difícil, ser doloroso, cansativo, frustrante, aí eu quero. Difícil admitir que talvez eu tenha feito a escolha menos adequada até mesmo para minhas pobres expectativas (normalmente, as de sofrer).
Errei? Pode ser que sim, mas sempre que eu penso em desistir, que eu vejo que estou no caminho errado, algo tentar manter minha vontade de estar perto, incrível. Apesar de você me intimidar, e por isso, eu sempre tentar me manter o máximo de afastada, é só olhar para sua nuca descoberta para sentir vontade de me enroscar em um abraço, me grudar em você, me pendurar em seus cílios a piscar e ficar.
Eu posso vir escolhendo errado há anos, eu admito minha tão grande culpa, mas algo em você me fez pensar que essa escolha fosse viável, e eu escolhi. Escolho agora as seguintes opções: Me desapontar, depois cavar até o fundo do poço, depois afundar minha cabeça dentro de mim, e então ver o que sobrou inteiro em todos esses anos, e assim voltar disposta a assumir novas velhas escolhas e escolher. Eu Escolho! (Uma segunda escolha é possível, dependendo das circunstâncias, a de seguir em frente nesse caminho cego e esperar para ver.) Esperemos, a minha escolha já está bem clara agora.
"Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?"
7 de fevereiro de 2013
Minha estrela de dormir
. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado
Escrito em 27 de outubro de 2011
Olhando pro céu,
te olho, te encontro
Minha procura
Minha busca amiga.
Companheira das horas
te questiono com olhos,
me dizes teu nome:
Pobre Lila,
vive contando dos "stars"
falando de grandes nomes.
Pobre Lila,
fica do alto
olhando nossos narizes.
Ri quando te falo,
chora quando te conto,
canta para que eu durma
e fica a sussurrar enquanto sonho.
Teu nome:
Pobre Lila,
que de morrer tem tanto medo,
sem brilho, sem lar ou ar.
Pobre Lila,
que sorri amores frouxos,
poucos, amores dos outros.
Escrito em 27 de outubro de 2011
Olhando pro céu,
te olho, te encontro
Minha procura
Minha busca amiga.
Companheira das horas
te questiono com olhos,
me dizes teu nome:
Pobre Lila,
vive contando dos "stars"
falando de grandes nomes.
Pobre Lila,
fica do alto
olhando nossos narizes.
Ri quando te falo,
chora quando te conto,
canta para que eu durma
e fica a sussurrar enquanto sonho.
Teu nome:
Pobre Lila,
que de morrer tem tanto medo,
sem brilho, sem lar ou ar.
Pobre Lila,
que sorri amores frouxos,
poucos, amores dos outros.
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