14 de julho de 2014

Pra sempre fui acorrentada no seu calcanhar, Ouro Preto

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

 Essa viagem nasceu no ano passado quando eu fiquei sabendo que no período em que estivesse acontecendo a Copa do Mundo de Futebol no Brasil, a minha tão amada faculdade me daria de presente as férias que há muito eu não tinha. A partir desta informação, planos foram feitos e desfeitos, tempo passado, enfim, cá chegamos. Eu, na minha "vida louca vida", tinha desistido da viagem por alguns motivos, no entanto, como os motivos mudaram rapidamente, e como o destino tem dessas coisas, acabei sendo convidada a ir à Ouro Preto pelo tão amável Paulinho Moska. Ele leu meus pensamentos, o feicebuque leu meus pensamentos, alguém leu meus pensamentos... E, como num surto, eu pulei da cama e resolvi ir à Ouro Preto. De cara, pensei em convites, não queria mais ir sozinha, negado os míseros dois convites, e um, extraviado, quis ir sozinha. Os meus? Novamente me chamaram de louca, argumentaram sobre o perigo, questionaram sobre o meu medo. Eu ignorei. Tive uma única dúvida:
 "Mãe, eu vou morrer?"
 "Não. Você não tá me perguntando se pode ir né?"
 "Não. Só quero saber a sua opinião."
 "Você quer ir? Vai!"
 Eu fui.
 Louca toda vida.
 E tomei uma das melhores decisões dessa minha curta vida. Poderia ter dado errado, eu sei. Mas não deu. Me arrisquei, um risco pequeno aos meus olhos, mas grande quando colocado na conta daquela eu que não se arrisca por nada. Fui em busca de mim, de me conhecer, de saber o quê e quanto mudou, eu estou muito mudada. Algumas músicas não fazem mais sentido. Alguns rótulos não são mais meus. Alguns gostos eu deixei de lado. Mudei muito mas precisava sair por aí comigo mesma pra conhecer essa pessoa que eu me tornei ao longo desse ano.
 Uma vez em Ouro Preto, de cara aprendi uma das maiores lições sobre viajar sozinha. Se você tem uma vagina, não se preocupe em fazer amigos. Eu sou tímida, mas deixei esta bem de lado na viagem. Eu sou ríspida, desconfiada, levemente má educada, deixei de lado também. Não era um personagem, era eu, mas um eu despreocupado, como eu fico quando estou nos braços de alguém que confio. No entanto, só isso não faz amizade, ser mulher ajudou bastante.
  Já nas minhas primeiras horas, e durante um BrasilversusAlemanha de chorar, eu ganhei companhia. As pessoas que passavam ao lado do Obelisco na Praça Tiradentes antes do jogo falavam comigo, o cara de pernas de pau falou comigo, a menina com guarda-chuva colorido e torto falou comigo, o casal com gêmeas fofas falou comigo, o senhor bebendo cerveja falou comigo. O jogo ia começar. Olhei pro céu, e estava numa beleza radiante. Falei com Deus com convicção de que a nossa seleção ganharia. Eu achava que ia ganhar. Essas coisas que a gente só sente porque ama e confia em algo? Então. Enfim, entra o Bernard lindinho no jogo, eu o peço em casamento nos meus pensamentos - e no feicebuque -, eu canto o hino, tenho esperanças, lembro que amo futebol, acompanho os dez primeiros minutos do jogo, que são muito bons para seleção brasileira, tendo medo de quando as coisas começam bem, e 6 minutos e 40 segundos de tristeza. Acabou? Não. Apagão? Sim. Eles são tão ruins? Não, certeza. Eles são os melhores? Não, certeza. Ainda tem chance? Eu sempre vou acreditar. Acreditei, torci, vai ver rolava um milagre. Não rolou. Um cara feliz com uma cerveja na mão e pedindo um 8x0 me ofereceu seu ombro pra eu chorar, chorei, discuti, contei caso, ótima companhia.
 Aquele jogo não ia estragar a minha viagem.
 Saí a noite andando por Ouro Preto, destino: Rua Direita. Banda de gente estranha e bonita tocando na rua, paro e me recosto no muro de um pub, vejo olhos me olharem, penso em ir embora, mas então vejo que esses olhos são um riso contente, tipicamente nordestino, deixo este me adentrar, e conheço uma pessoa incrível, que faz com que eu sorria mais que o normal, que eu deixe meu medo das pessoas de lado, que eu paquere. Fim de terça, conversa na sala e ouço de um homem a melhor coisa que ouvi durante toda a viagem, "É difícil admitir, mas você é mulher e entende pra caralho de futebol". Ouro Preto é linda!
 Quarta-feira, vestido longo, sandálias se arrastando. Bora pro mundo! A vista é linda, as moedas são lindas, a senzala é triste, escura, fria; as pessoas são lindas, a água é barata, a comida também, as trufas são incríveis, os oratórios também, Aleijadinho é maravilhoso, e a Igreja de São Francisco de Assis é a mais maravilhosa de todas. Segue tarde. Concluo que pra visitar Ouro Preto é necessário trazer um par de pés sobressalentes, os meus doem pra burro.
 Noite que chega, Holanda perde nos pênaltis para a Argentina enquanto eu tomo banho. Conheço duas pessoas legais na mesma meia hora. Uma, me ensina que tudo em Ouro Preto foi feito pra durar. E a outra, que eu tenho mesmo que me jogar, e como, risos. Encontro marcado com Paulinho Moska, mudo de direção apenas para ouvir um belo coral cantar. Moska faz mais do que me surpreender, se eu já gostava antes, hoje sou uma fã apaixonada. Berros a parte, volta pra dormir. Conversa na sala. Dor de ouvido durante a madrugada. Eu só quero dormiiiiiiiiiiiir! Ouro Preto é friamente congelante!
 Quinta-feira, casaco em mãos. Bora pro mundo! Passo antes na farmácia porque preciso de remédio para dor de ouvido. As ruas são lindas, os quadros também, a Mina é mágica, Chico Rei é REI. Conheço um japa que precisa que eu traduza o mineirês de Bianca Pink pra que ele entenda a história que ela conta. Mais um amigo. Ouro Preto é tão legal comigo. Mais dois amigos, agora eu tenho uma amiga trans, ueeeeeeeba! Me separo do japa pra almoçar, como a melhor quiche do mundo, do MUNDO, e quem me atende é um francês gato que me pede desculpa por me deixar esperando, eu te espero pra sempre seu lindoooooo! E partiu museu, pedras preciosas, igrejas, chuva, chocolate quente com pão de queijo no café mais lindo da cidade. Felicidade. Compro cachaça, pau de chuva, caixinha de pedra sabão, licor de chocolate com avelã, e chuva na cabeça.
Noite que esbarra, conversa boa, friozinho, encontro marcado com Leo Fressato e Ana Larousse. Bora! Como num dos lugares mais saborosos de Ouro Preto e depois só deixo a música boa me invadir. Fim de show. Ganho beijo na boca do mais lindinho cantor de amor do Brasil, compro dois CDs, música boa curitibana nos ouvidos, autógrafo, abraço, sou linda, foto. Volto sozinha pelas ruas de Ouro Preto. Portão que se abre sozinho, eis que vejo: boa companhia, boa surpresa, bom papo, bom corpo. Me rendo. É a última noite. Me coço pensando em quem eu quero ser, reprimindo, exalando. Cama, dormir, decisão. Ouro Preto é minha!
 Sexta-feira, comida boa, comida boa, papo com alemão, comida boa, comida boa. Noite, Rio de Janeiro, casa. Eu volto e sou recebida por um céu que dá risada.
 Ainda não acabou pra gente, Ouro Preto. Eu volto já, mas volto no verão!
"Um amor novo a cada manhã... Nas minas gerais do meu coração o que se extrai é minério de amor." 
                               Leo Fressato

Playlist da viagem:
(Praça Tiradentes vista da Escola de Minas. Julho/2014)
"Pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar"

"Tudo começou aqui
Longe do mar
É que o cinza é maior que o céu
E o resto é chorar
Vai menina, põe teu rosto de sorriso
Teu vestido azul tão lindo
Põe teu jeito de brincar
(...)
Foi do mundo se levantar
E agora é crescer
Vai menina, veste o peito de coragem
Corra, não perca a viagem
Porque os anos logo vem
(...)
E agora eu vou!"

(Sala Casa dos Contos. Julho/2014)
"Sou um móbile solto no furacão 
Qualquer calmaria me dá... solidão
Quando a âncora do meu navio encosta no fundo, no chão
Imediatamente se acende o pavio e detona-se minha explosão
Que me ativa, me lança pra longe pra outros lugares, pra novos presentes
Ninguém me sente...
Somente eu posso saber o que me faz feliz
Sou um móbile solto no furacão 
Qualquer calmaria me dá solidão"

(Banheiro da Chocolates Ouro Preto. Julho/2014)
"Calma 
Tudo está em calma 
Deixe que o beijo dure 
Deixe que o tempo cure 
Deixe que a alma 
Tenha a mesma idade 
Que a idade do céu"

(Igreja São Francisco de Assis. Julho/2014)
OURO PRETO
"Vamos visitar São Francisco de Assis
Igreja feita pela gente de Minas
O sacristão que é vizinho de Maria Cana-Verde
Abre e mostra o abandono
Os púlpitos do Aleijadinho
O teto do Ataíde
Mas a dramatização finalizou
Ladeiras do passado
Esquartejamentos e conjurações
Sob o Itacolomi
Nos poços mecânicos policiados
Da Passagem
E em alguns maus alexandrinos
Só o Morro da Queimada
Fala do Conde de Assumar"


(Área posterior à Igreja de São Francisco de Assis. Julho/2014)
"Eu sei
Ela é um pouco rebelde
Eu sei
Talvez seja covardia
Eu sei
Talvez troque a noite pelo dia
Eu sei
Talvez seja a juventude
Ou talvez tenha lido demais
Visto filmes demais"

(Igreja de Santa Efigênia vista da Igreja de São Francisco de Assis. Julho/2014)
"Vamos acordar
Hoje tem um sol diferente no céu
Gargalhando no seu carrossel
Gritando nada é tão triste assim
(...)
É tudo novo de novo
Vamos nos jogar onde já caímos
Tudo novo de novo
Vamos mergulhar do alto onde subimos

Vamos celebrar
Nossa própria maneira de ser
Essa luz que acabou de nascer
Quando aquela de trás apagou

E vamos terminar
Inventando uma nova canção
Nem que seja uma outra versão
Pra tentar entender que acabou"

(Porta lateral da Igreja do Pilar. Julho/2014)
"Eu grito por liberdade, você deixa a porta se fechar 
Eu quero saber a verdade, e você se preocupa em não se machucar 
Eu corro todos os riscos, você diz que não tem mais vontade 
Eu me ofereço inteiro, e você se satisfaz com metade"

(Minha vista favorita! Igreja do Pilar à esquerda. Julho/2014)
"Então siga o seu caminho
Faça o que quiser fazer.
Pode sair de mansinho
Mas não poderá mais me esquecer
Mas não poderá mais me esquecer"






28 de junho de 2014

Temos todo o tempo do mundo?

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

  Confesso que há 5 minutos eu estava tentando dormir, no entanto, apesar de cansada por ter acordado super cedo porque, como já vou explicar, meu corpo não perde tempo, minha mente não sossegou e eu tive que vir escrever.

"Eu havia farejado a pista de uma vida diferente e nada me desviaria dela. Eu a caçaria. Encontraria seu lugar dentro de mim. Iria achá-la, prová-la, devorá-la. O cara podia ter cuspido no meu rosto e eu limparia o cuspe e continuaria andando.
Não haveria distrações.
Nem arrependimentos."
                                 Markus Zusak em A garota que eu quero

  Estou de férias. Férias na faculdade. Férias no projeto. Fééééééeeeeeeeriâââns... Quem me conhece sabe que eu estava precisando, no entanto, minha mente e meu corpo não concordam - certo que meu corpo está funcionando um pouco melhor -, eles simplesmente discordam do meu discurso de "só quero dormir por um mês". Assim sendo, eu acordo todos os dias antes das 8 horas sem nenhum despertador, ainda que eu tenha ido dormir às 3, eu não consigo passar 10 minutos que sejam, apenas sossegando, eu acabo pensando na vida, e, é aqui que eu começo a escrever sobre o que realmente importa.
  Eu tenho fome de vida. Eu tenho fome de viver. Eu tenho fome. Eu tenho vida. Não consigo simplesmente ver o tempo passar, eu tenho que passar com ele. Talvez os meus pais estivessem agitados quando me conceberam, com muita vontade de viver. Talvez seja por conta da pouca oportunidade e muita vontade de viver que eu vejo na minha mãe, via na minha avó, via na minha bisavó, vejo na minha avó. Talvez seja só porque eu conheci os lugares certos, li os livros certos, recebi a educação certa, fui pelo caminho certo. Não sei. O que eu sei é que eu simplesmente não consigo sentir que estou gastando meu tempo. Eu preciso estar vivendo este a todo momento, eu preciso sentir que estou criando, levando, mudando. Eu preciso fazer parte do tempo que passa.
  Desde a infância eu tenho crises de ansiedade por conta do tempo que passa. Quando eu tinha uns 8 anos, eu chorava toda noite porque eu não tinha brincado o suficiente durante o dia, tinha deixado a preguiça me instalar no sofá vendo os desenhos passarem, fazendo com que eu perdesse a oportunidade de encontrar meus amigos, fazer novos, conhecer novas brincadeiras, então, no meio de muitas lágrimas e horas sem conseguir dormir, eu me prometia que no dia seguinte seria diferente, eu me comprometia comigo mesma a brincar, para que não me arrependesse 10 anos depois. Confesso, não brinquei o suficiente. Com uns 11 anos, talvez 12, eu não conseguia dormir durante a noite e sofria todos os domingos, isso acontecia porque nesses momentos eu simplesmente não estava ocupada, estudando, estudando, estudando - como sempre foi -, eu estava livre, livre pra pensar na vida que eu estava levando, e como ainda acontece hoje, quase sempre o que eu via não me agradava, aumentava a angústia, e as promessas de que eu faria minha vida e meu tempo valer a pena, para que não me arrependesse 10 anos depois. Confesso, não fui totalmente bem sucedida. Com 21 anos, ou seja, agora, eu perco noites de sono, choro todos os dias quando tomo banho e vivo reclamando pra quem não me julga muito, que a minha vida está passando. Eu tive uma crise de ansiedade e ela simplesmente aconteceu porque eu estava com tempo livre. Livre pra pensar em quanto eu não estou fazendo o que eu quero. Não sou ingrata de dizer que é em tudo, que a minha vida é nada do que eu quero que ela seja. Ela é, só que é parte do que eu quero que ela seja, e, é o medo de que eu não consiga fazer dela um inteiro, que me dói.
  É o medo de não ter a oportunidade de viver tudo, é o medo de me dedicar à algumas coisas e daqui a 10 anos, ver que não valia tanto. Claro, tudo na vida é risco, e nós sentimos o que sentimos, e usamos isto pras nossas escolhas, mas, não deixo de ter medo por saber que não dá pra viver sem se arrepender. Eu morro de medo. Porque eu quero estar no controle e ao mesmo tempo sentir aquela sensação de se perder de si mesmo. Porque eu quero ser livre pra escolher o que eu quiser, mas quero estar presa nas pessoas. Porque eu quero ter os meus muitos amigos e tempo para encontrar e ser útil a todos. Eu quero ser médica, eu quero continuar coreografando e trabalhando no projeto, eu quero trabalhar na oficina de leitura, eu quero me mudar, eu quero correr, escrever, entrar em oficinas de dança, desfilar no carnaval, viajar, conhecer pessoas, eu quero tudo. E ter tudo eu não consigo.
  Conclusão: Enquanto as pessoas com quem eu quero estar não podem estar comigo, ou não querem, e enquanto eu não posso ir e fazer tudo o que quero, eu vejo o tempo passar, e isso me dói uma dor que eu simplesmente não consigo ignorar. Lateja no alto da minha barriga e me impede de tudo, de ir aonde eu quero ir, de falar o que eu quero falar, de ser. A espera é insuportável. Eu não consigo ser a pessoa que fica sentada, ignorando seus instintos, aceitando que a vida não é como queremos e sim como deve ser. Eu não consigo.
  Não quero parecer contraditória, mas a verdade é que eu prefiro estar muito ocupada e ter uma desculpa pra não estar fazendo as coisas que eu quero. Porque maior que a dor de não poder, é a sensação de fraqueza perante a vida de não estar fazendo. Tempo, não pára, prometo que vou viver.

Renato, fala tudo...




11 de junho de 2014

Sobre um Convento ser a minha casa

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado


Foto da Igreja de Santo Antônio no Convento de Santo Antônio, Carioca, Rio de Janeiro.

  Hoje eu simplesmente não conseguiria dormir se não escrevesse sobre esse lugar.
  O conheci em 2009, quando em um passeio pelo Centro da cidade, eu e mais duas amigas, corremos enlouquecidamente toda a rua Uruguaiana para encontrar um local para que uma delas pudesse se confessar. Não que fosse ela uma grande pecadora. Não que estivéssemos atrasadas. Éramos adolescentes.
  Me encantei pelo lugar no segundo segundo em que estive lá. Escondido. Imponente. Talvez eu tenha me apaixonado pelo lugar por conta de Santo Antônio - meu amigo de longa data -, talvez porque esteja sendo restaurado desde que o conheço, e tenha eu grande fissura por coisas inacabadas, por revolução, por restauração, talvez ainda por conta do folheto que li naquele dia, ou ainda, por conta da resposta do frei às perguntas da minha amiga. Deustino. Não sei. Me apaixonei. E desde então, tem sido este o meu lugar.
  Lugar que eu não conheci por promessas para o bem dos que amo, lugar que eu frequento não pelos outros, mas por mim, lugar que me escolheu, e que eu escolhi pra ser o meu refúgio. No entanto, é neste lugar que sempre me sinto obrigada a ser mais. Para fazer crescer.
  Admito, atualmente a Igreja não está tão bonita quanto na foto, como eu já disse, está sendo restaurada - e até o meu casamento ela fica pronta - entretanto, é de uma paz, de uma gentileza comigo, que eu não preciso que nada nela mude para ter certeza de que lá eu posso tomar qualquer tipo de decisão.
  Porque essa Igreja não me obriga, não me cala, não me ofende, não grita comigo. Porque essa Igreja não espera mais de mim, não espera nada, nem mesmo a minha presença. Porque essa Igreja nem mesmo precisa de mim para estar ali, de pé, afinal são 400 anos. E ainda assim, sem me extrapolar em nada, faz de mim parte dela.
  E hoje, em um dia de tanta ansiedade, de tanto cansaço, de esforço, mais uma vez ela me fez enxergar. Sempre recorro a ela quando estou me sentindo mal, sozinha, indecisa, insegura, amedrontada. Sempre recebo a resposta que preciso, ainda que à primeira vista seja inadequada. Hoje não foi diferente.
  Cheguei no início da homilia, a Igreja estava cheia, trezena de Santo Antônio. Me deparei com um frei que tem quase a minha idade, mas é de sabedoria muito maior. Encarei uma homilia que foi feita pra mim, aqueles velhos tapas na cara. Uma homilia que falava sobre amor. Nós sabemos que somos amados, mas ser amado não faz de nós algo grande, o que nós fazemos com o amor que sentem por nós é que faz com que cresçamos. E assim é com o amor de Deus também. Senti por estar tão longe, mas me veio à cabeça que nessa época do ano já estive longe muitas vezes - sexta, dia 13, é dia de Santo Antônio - e que Santo Antônio sempre me fez voltar. Não para pedir namorado. Não para pedir. Mas para receber amor. Cuidado. Sei lá. E hoje foi exatamente assim. Quando eu estava ajoelhada no altar, fazendo as minhas orações de quando preciso ser puxada pelos cabelos e colocada no lugar, Antônio estava me abraçando.
  Pode parecer imaginativo, e em muito o é, mas eu não me sinto perdida quando estou no Largo da Carioca olhando para as rachaduras nas cerâmicas que recobrem o chão da Igreja, essas rachaduras me direcionam muito mais à minha espiritualidade do que grandes sermões, difícil de entender, mas quando se ama algo ou alguém, até as rachaduras são boas e te fazem lembrar que você tem sorte, sorte de ser aceito, de ser compreendido, de ser perdoado. Então, nesse 13 de junho, não existe nenhum lugar que eu queira estar mais do que no Convento, e eu vou estar. Para agradecer o carinho e todas as respostas implícitas naquelas paredes com pedras a mostra. Eu e você estamos evoluindo juntos Convento, e espero estarmos bem para vermos o amadurecimento um do outro.



7 de junho de 2014

Parei pra viver

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado


  Eu poderia postar qualquer coisa aqui, seria uma novidade. Poderia dissecar minha alma atrás de algo de valor que fizesse alguém refletir sobre a si próprio. Mas não. Realidade infeliz, eu só tenho algo a dizer quando estou me sentindo incompleta. E não tenho estado. Mas a luta de não se despedaçar, de buscar levar uma vida mais equilibrada, sem tanto drama, eu posso compartilhar, ainda que, admito, não seja tão encantadora.
  Em janeiro deste ano resolvi parar de pensar pra viver¹, me dei conta de que todas aquelas neuroses, aqueles sofrimentos inúteis, aquela aflição descompensada, não estava me levando à algum lugar, não estava me levando, estava me deixando isolada num canto do qual eu nem gostava. Resolvi me livrar! Não foi fácil. Anos dividindo minha vida com aquelas ideias, minhas ideias. Foi bem sofrido mas a desilusão me levou a ter gana. Mandei todas as antigas histórias pastar, e resolvi conhecer novas.
  Confesso, percorri caminhos muito confusos, estive com pessoas com as quais nunca imaginei compartilhar algo, passei a admitir bem pouco critério, os meus demoraram para me reconhecer sob aquela minha nova eu, teve muito questionamento, muito olhar desconfiado sobre o que eu estava tramando. Eu só queria não querer nada. E não quis. Foram três meses de pura e total liberdade. Eu nunca fui tão feliz. Nunca fui tão aquela pessoa que eu sempre disse ser, a que não se importa nem um pouco com o que os outros acham. Me encantei por essa vida. Pelas pessoas com quem ela estava me levando a estar. Me apaixonei por ela. Tanto, que fiquei mais desinibida, fui sem perguntar pra onde, sem me preocupar em como e quando voltar, só indo. Em um momento, me dei conta de que já tinha andado demais.
  Eu não precisava parar, eu nem queria parar, eu estava deixando as coisas serem como deviam ser, no entanto, tenho que admitir, essa vida de me deixar levar foi bem cansativa. Ela me levou à muitas pessoas, e não magoar muitas pessoas, é de longe a coisa mais difícil pela qual passei nessa brincadeira. E, considerando a minha nada mole vida, ter disposição e sorriso no rosto para encarar toda novidade que aparecia, não era fácil. Era prazeroso, mas não fácil. Por isso parei.
  E como sempre acontece na vida das outras pessoas, e não na nossa, a estática chegou no momento certo. Eu passei meu tempo com pessoas incríveis no início desse ano, sem planos e tudo o mais - afinal, "Iaiá, se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade"² - mas quando eu parei, esbarrei em alguém que não me fez voltar a ser a louca psicótica que pensa demais, mas que faz com que eu consiga ainda ser esse meu eu novo.
  Esse eu descomplicado, quer dizer, um pouco menos complicado, só quer agradecer a vida por tê-la mostrado que as coisas são mais óbvias do que parece, que tentar driblar as pessoas e se obrigar a não se envolver pode ser mais doloroso do que o contrário. E que, como as minhas amigas me ensinaram essa semana, pensar positivo pode trazer resultados maravilhosos. Que venha mais um semestre incrível ao lado de pessoas incríveis!

¹Citação da música Vou Mandar Pastar da banda 5 a seco.
²Trecho da música Retrato pra Iaiá da banda Los Hermanos.


"Vou mandar pastar
7 de março de 2014

Enquanto eu não te encontro

. Sim, eu uso meias coloridas - Amanda Machado

                         Capelli in fiori de Jiane Maschette

Quando eu te encontrar, eu vou saber fazer um buraco ao lado da minha cama aonde eu possar jogar as minhas frustrações.
Quando eu te encontrar, vou caminhar leve por aí, sem precisar arrastar o peso enrolado às minhas pernas.
Quando eu te encontrar, vou dançar sem dor nos meus pés descalços, cantar sem rouquidão na minha voz cansada, sorrir sem pensar nas minhas histórias tristes.
Quando eu te encontrar, vou achar que encontrei tudo.
Que todas as coisas estão resolvidas.
Que todo o medo fugiu e que não corro mais risco que ele me encontre.
Quando eu te encontrar, as cores, a luz, o cintilar, o som, o arrepio, a moleza, vão chegar.
Só que, só quando eu te encontrar.
Mas quando eu te encontrar, vou fazer valer todos esses anos de silêncio, toda essa falta de fala, toda a perda de contato, todo o não roçar das mãos.
Vou te fazer morar no meu colo, viver do ar que eu respiro, amar do amor que eu construí.
Só quando eu te encontrar.
Porque quando eu te encontrar terei me encontrado, e você, a si mesmo.
É dura a procura. É duro o não encontrar.
Mas quando eu te encontrar, só quanto eu te encontrar, porque eu vou ter te encontrado, vou descansar na paz.