15 de dezembro de 2010

Ritual das quatro da tarde


. meia colorida - Amanda Machado

Ela parecia atrasada, andava rápido, largas passadas, e olhava o relógio quase que minuto a minuto. Ela estava atrasada. Seu rosto era rubro, como se estivesse coberta por um grosso edredom de raiva e seus cabelos ondulados estavam presos a cabeça como em um novelo de lã. Seus olhos baixos olhavam para as pessoas que passavam, e quem reparasse na moça de sandálias vermelhas de salto bem alto, entenderia o motivo de seu sorrisinho leve. Breve como o sorriso da lua no fim da noite, ela logo cerrou os lábios e continuou a caminhada. Parou em uma lanchonete. Queria pães de queijo e um chá gelado. Sentou ao lado direito da loja, onde não havia quase ninguém e consultava o relógio como se esperasse que enfim os ponteiros chegassem ao ponto final. Demorou cerca de quinze minutos na loja, comeu, pouco bebeu, levantou-se e começou a caminhar para a praia. Já na areia, olhou tudo ao redor, tirou os sapatos pretos, largou a bolsa de lado na areia, e caminhou em direção a água. Ficou olhando, imóvel, durante mais de meia hora. Não parecia esperar alguém, sim, algo. Quando olhou o relógio de novo, resolvi consultar que horas eram, e quando olhei novamente à frente, ela estava retirando o grosso casaco e parecia se preparar para entrar ao mar. Olhei as horas novamente, eram exatamente 16:01, ela retirava a calça e dava para ver a lingerie negra que ela usava. Não retirou o relógio. Entrou no mar soltando os cabelos de lã e quando a água chegou à cintura, parou. Mergulhou e subiu, cheguei mais perto para reparar um pouco mais naquela espécie de ritual que a moça fazia. Ela então, retirou o relógio, lançou ao mar e começou a sair do mar. Andando devagar como se estivesse leve, saiu do mar, tocava os pés levemente na areia. Quando alcançou suas roupas, sequer as tocou, continuou a caminhar deixando tudo para trás. Passando por seus sapatos e pela bolsa grená que carregava continuou a caminhar. Foi quando notei um carro cinza parado na orla, ela entrou e se foi.
O que a moça pretendia com todo o ritual eu não sei, só sei que se chamava Anita Barbosa, tinha vinte e seis anos e não era do Rio de Janeiro, havia nascido em uma cidade do Paraná, quem me contou tudo isso? A bolsa grená.
7 de dezembro de 2010

VivA


. meia colorida - Amanda Machado

Procurei estar em outros lugares e dizer outras palavras. Procurei não amar alguém e pouco esbarrar nas pessoas. Procurei deixar de lado a escrita e viver nova História. Procurei quebrar as regras e bancar a inconsequente. Procurei não me apaixonar por músicas e parar de comer doces. Procurei andar somente na calçada e usar menos meia-calça. Procurei não falar tão alto e andar menos descalça. Procurei não engrossar a voz e usar brincos. Procurei ler menos e falar mais dos meus sentimentos. Procurei me afastar das mentiras e me isolar no meu quarto. Procurei não andar na chuva e dormir cedo. Procurei não ser eu. Procurei ser outra pessoa. Busquei fugir do caminho que eu levava pois acreditava ser isso que me saturava. Encontrei a realidade quando tentei ser outra pessoa. Não era eu que me saturava, eram os acontecimentos, e mudando de lado, de ritmo, costumes, cultura, religião, nada alteraria os motivos de tanta saturação.
Por isso aqui estou, amando, escrevendo, escolhendo. Seguindo minhas regras e me encantando cada vez mais por músicas. Uso meia-calça tanto quanto lavo os cabelos. Falo alto e dos meus sentimentos, ando na chuva e minha garganta inflama. Sou eu, e isso me basta.
Basta para você, ser só "você"?


"ali tão pouco
presa não estarei
e se
a fumaça encobrir minhas respostas,
aqui me formarei.

Viva."

10 de setembro de 2010

...pode ser o último detalhe



. meia colorida - Amanda Machado

Quando espiei com os olhos vi algo mais que distante, notei que não conseguiria me aproximar, eu consideraria aquilo impossível independente da circunstância, eu já tinha decorado a minha fala, sabia o que fazer, mas meu corpo me impedia, tentava me deter com unhas e dentes, eu queria levantar, mas não conseguia, algo me segurava e me mantinha em meu lugar enquanto minha mente ia se fechando e meu coração acelerando.
Chega, pergunta, argumenta, e lá se vai mais um ser em outra direção. Meu coração perde o rumo e eu mal consigo respirar, eu quero falar, quero entender, quero chorar. Quero mais que isso, quero um pouco de sol, pouco menos de chuva.
Minhas mãos tremem e meu estômago clama minha atenção, pede calma, mas a pressão no meu interior é tamanha que não consigo ouvir, a pressão se prende em minha boca e me faz querer chorar, me faz lembrar, eu quero parar!
Acabou, é o fim, eu não vou conseguir!
Acabou, é o fim, eu não vou conseguir.
Acabou, é o fim, eu não vou...
Eu não consigo admitir o que eu quero, eu não consigo admitir NADA, eu mal consigo me aceitar.


"não esqueça, não guarde, pode ser o último detalhe..."
Eu sei que nada foi perdido sem motivo, mas eu também sei que eu não sei como reaver as coisas. E minha mente berra: Pense, fale, ouça, viva!
O quê eu vou fazer? Perder-me? Vou plantar coragem...
Não dá para entender, só sei que quero.

"por mais que eu queira, eu nunca chego no horário, eu perco tudo que eu ponho no armário" - Leoni
1 de setembro de 2010

Abre chaves.


. meia colorida - Amanda Machado

Há pessoas que só de olhar você já as vê como amigas, e elas no fim de um dia já são realmente amigas, e no fim de uma semana, são confiáveis, e no fim de um mês, são para sempre. Essa é uma forma louca e boa de fazer amigos, e, é assim que normalmente eu faço amigos. Mas há pouco mais de um mês eu descobri uma nova forma de se fazer amigos. Há pessoas que você conhece há anos, que você já direcionou a atenção a ela umas cem vezes, e já falou com ela pelo menos trinta vezes, mas elas não são suas amigas, elas são literalmente um rosto conhecido, e ai, como em um estalar de dedos elas se firmam na sua vida, podendo ser durante uma semana, ou durante quinze dias, o importante é que ela se fixa tanto que se torna mais que um rosto, mas um corpo amigo, e deixa de ser simples, para ser algo bem mais complexo.
E foi assim com a pessoa que me inspira para criar esse texto. Não foi bem assim, mas posso declarar que foi bem mais complexo que linguagem C.
Eu descobri na figura dele uma pessoa inteligente, boa, engraçada e criativa. Descobri qualidades e alguns defeitos. Descobri um pouco sobre o futuro, quase nada sobre o passado e muito pouco sobre o presente. Vi delicadamente a grosseria em seus olhos, e grosseiramente vi delicadeza em determinadas atitudes. O vi esperto, ingênuo e simples, e o vi bem mais que isso, talvez eu não tenha o visto.
Falar com ele, e driblar a pressão quanto a promessa de um texto me fez ver que ele não desiste, e me fez ver que seria mais difícil do que eu pensava. Eu quis dizer que nunca iria fazer, mas ai veio um turbilhão de ideias na minha cabeça as quais agora eu desprezo.
Com ele, eu quis ser útil e habilidosa, tentei ser agradável. As coisas que acontecem com o passar de pouco tempo também podem marcar, e marcaram. Ele me fez rir, e me fez me sentir bem, me ajudou, me ensinou, e riu das minhas bobeiras. Ele não é só mais um colega de classe, ele agora é meu amigo, e acho que ele permite ser chamado assim.
Eu desejo e espero que a vida dele seja incrível, que ele tenha filhos e que não seja solitário. Espero que ele seja um diplomata melhor que o chocolate (meio difícil né?) e que eu sempre possa ter conversas agradáveis, como as no meio da aula por intermédio de uma folha de caderno. Eu espero que ele se concentre mais nas aulas e que eu não esteja atrapalhando. Eu espero esperar.
Igor Serra Ni... qualquer coisa, eu gostei de ser sua dupla, deu pra notar né?

Um pedacinho do outro texto: "Como algo como telecomunicações, remetendo a ideia de comunicação à distância pode aproximar pessoas? Como uma complexa linguagem C, pode se tornar a linguagem de duas pessoas? (...) não algo que é propagado para todos, mas algo que fica só conosco, um canal à parte. (...) da mesma maneira que sei que melhor que dizer que gostei de você é comparar o nosso laço a toda área possível de telecomunicações, sim, mantenha-se em sua célula! fecha parênteses, ponto e vírgula."
27 de junho de 2010

O som da liberdade


. meia colorida - Amanda Machado

Texto escrito no dia 9 de junho de 2010

Com os pés apoiados nas pedras, admiro o local considerado um dos cenários mais belos da cidade. Examinando a cor do mar, as pessoas que passam e o toque urbano da paisagem natural, me toma uma sensação de saudade, tristeza e solidão que já conheço e reconheço ser de determinadas lembranças, uma sensação que transborda e se faz lágrimas.
Olho o mar e o reverencio, o respeito, admiro de longe, sequer o toco, admito sua força e enquanto olho, o amaldiçôo por ter levado algo tão grandioso da minha vida. Minhas maldições são levadas pelo vento e minhas lágrimas se secam quando ouço um simples som. Direciono-me a procurar de onde o som vem e enxergo um pássaro próximo à pedra onde me apoio. Penso em me aproximar, mas a ideia de vê-lo ir embora me amedronta, afinal, aquele som me trouxe felicidade. Alguns minutos se passam e percebo que o pássaro não saiu do lugar, desconfio que ele tenha me percebido e talvez tenha notado o quanto me fez bem. Durante minha reflexão, o pássaro levanta vôo e o vôo curto me faz enxergar algo que eu já conhecia a liberdade.
O pássaro devia pertencer a alguém que mora bem perto dali, pois parecia já conhecer o lugar e enquanto eu fazia uma prece de agradecimento pela existência daquele pequeno ser da natureza, eu me libertava do medo e insegurança que sempre sentimos quando perdemos algo ou alguém especial e que eu sentia. A prece me fez entender que apesar de coisas que amamos serem levadas, pequenas recompensas nos são oferecidas todos os dias e que simples coisas se fazem sinal. O sol incomodando meus olhos era um sinal de que devia voltar para casa.


- ..quando bate a saudade eu vou para o mar, fecho meus olhos e vejo você chegar.. nas noites escuras de frio, chorei, meu caminho só meu Deus pode guiar, meu caminho só meu Pai, meu caminho só meu Deus, meu caminho só meu Deus, meu caminho só meu Deus.. (