12 de julho de 2011

Cartinhas

                                   Foto do Paper and Company
. meia colorida - Amanda Machado

Eu sou muito bobinha. Não fico me sentindo mais boba por admitir tal fraqueza. Eu me entrego tanto em tudo que escrevo, que quando alguém me escreve algo eu fico imaginando a outra pessoa se entregando e acredito em tudo que vejo escrito. Eu sou altamente sensível em relação a manuscritos. Se me escrevem uma carta, bilhete, mera frase, eu caio no buraco que montaram para mim. Caio! E eu não estou reclamando, eu sou feliz por cair, e quero continuar caindo toda e eterna vez que alguém me escrever algo, porque eu sou o tipo de pessoa que liga para essas coisas. Eu só escrevo o que não consigo dizer, e só digo quando é impossível escrever, o que é escrito você guarda, você mostra e relembra, o que se é dito é facilmente esquecido, alterado e inflamável. Eu acredito porque tudo que escrevo é de verdade, é para se levar a realidade.

Eu sou boba, bobinha, mas vou continuar mantendo a minha postura, não vou confiar se desconfio. Sou desconfiada.

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato. Ou toca, ou não toca." - Clarice Lispector
5 de julho de 2011

Sorrio por você

. meia colorida - Amanda Machado


O cabelo dela quando vai ao rosto, e as mãos quando os colocam para trás das orelhas. O sorriso tonto, e o ziguezear das pernas. O jeito que ela coloca um pé atrás da parte de trás do joelho e o fato de ela falar rouco. O corpo dela que exala notas musicais, e o seu violão que samba sobre o abdômen. Os olhos que colorem o céu, a boca que me grita sobre um véu, o nariz, as maçãs-bochechas rosas como o vestido que a veste. O correr nas ruas tortuosas, o abrir o portão enquanto eu a olho. Eu a amo, intensamente, amo. Eu te chamo, eu te canto, eu me vendo, mas vem você, aqui, comigo. Moça, de tornozelos pequenos, brincos prateados que imitam o brilho da Lua, menina, de meias até a canela, de sombra lilás até a janela, e de bola sobre os pés. Garota minha, meu pão, meu porto. Se eu pudesse, te declarava no imposto, como minha, possuída. E eu te quero garota, os seus cabelos, cordas vivas, o brilho das suas coxas, tão brancas, quero o cintilar do teu sorriso, minha moça, só minha. Passeia por aqui, fala comigo, me toca, me seduz, vem me deduzir! E gritarei, para quem quiser ouvir, que eu sorrio.
4 de julho de 2011

Se deixar perder é...

                                    Foto do Photographies
. meia colorida - Amanda Machado

Eu realmente já me perdi em muitos lugares, já me joguei por estradas que mal conhecia mas fingia conhecer. Já li a palma de minha própria mão e não vi nada a não ser uma linha me levando para frente, sempre para frente. Eu realmente já me perdi, porque achar vem sendo cada dia mais difícil e a loucura de perder me deixa acordada para o que pode vir a acontecer. O futuro é o que tem me deixado em alerta, afinal, cansa temer tudo o que pode se repetir. Eu não quero ter medo de que as coisas se repitam, mesmo que sejam elas tão ruins como as que aconteceram antes, ou piores. Porque dói ter medo e eu estou cansada de dor, vou deixar meu peito aberto e enfrentar o frio de ser corajosa. A solidão da coragem.

Solidão? Frio? Inverno.



"eu tava só, sozinho, mais solitário que um paulistano..." - Zeca Baleiro
1 de julho de 2011

Lar, meu doce lar

. meia colorida - Amanda Machado


Eu vou sentir muito se eu não conseguir preencher todas as suas expectativas em relação a mim. Eu vou sentir muito por ser cheia de dúvidas, por ter tanto medo e por ser tão insegura. Eu vou sentir muito por não te dar tanto carinho quanto precisa e por não estar sempre ao seu lado. Eu vou sentir porque eu tenho os meus momentos onde quero ficar longe de todo mundo, onde não quero ver gente, onde quero ser só eu e eu. Eu já estou sentindo muito agora. E eu sinto, porque eu sei que vou fazer de você meu lar, vou sentir o meu lar quando te tocar e você  não vai ter em mim o seu lar. Eu sinto muito por fazer do meu eu um ser tão egoísta, ciumento e desconfiado. Vai, me deixar sentir!

Eu vou sentir muito, mas vou continuar sentindo, e não ache você que não vou te amar, que eu não vou querer te cuidar e te acalentar, eu vou querer, mas eu vou sentir tanto que vou achar melhor me proteger. E eu me protejo bem, querido. Eu me protejo tanto que existem épocas que as pessoas nem me acham de tanto que me escondo, e eu sinto muito por ter que me esconder de você já que eu queria tanto que só você me visse.

Eu sinto muito por ser quem eu sou, mas se eu não fosse eu e não sentisse muito o tempo todo, você não poderia ser o meu você e eu sentiria muito ainda mais.

Para ouvir: Amor pra recomeçar - Barão Vermelho
13 de junho de 2011

Entre gritos e beijos

. meia colorida - Amanda Machado

Essa semana me disseram uma frase que me fez ficar com cara de: ignoro sua teoria. Depois de dois minutos, lá estava eu sendo absorvida pela teoria e absorvendo as minhas reações a absorção.

"Onde tem amor, tem briga."

Parece tolo e insensato concordar com tal afirmação, mas depois de uma grande análise de espírito e das estatísticas, me decidi. Concordo! Concordo porque é inutil não concordar, seria só por teimosia. Realmente, não tem como amar o outro, com suas imperfeições (mesmo que pareçam perfeitas ao olhos dos apaixonados), suas manias, pensamentos e teorias, que nunca são iguais as nossas, sem discordar. Discordar é viver. Se concordamos com tudo, desprezamos o fato de que temos um cérebro só nosso e passamos a substituí-lo pelo de outra pessoa, isso não é vida. Se você ama, você vai discordar, porque você vai conviver com alguém diferente de você, e logo, vai discordar. Não dá para comer jiló apenas pelo fato de que alguém que você gosta, gosta.
O amor pode nos tirar o rumo, pode nos tirar do caminho, pode fazer malabarismo com nossos corpos, mas não pode arrancar nossos ideais de nossos peitos, logo, por discordância, haverá brigas. E muitas, é melhor nem contar! Mas, se você amar, se quiser estar, se aprender a perdoar, a ignorar, e a fingir que os comentários que te atingem, não atingem, pronto, você está preparado para amar o outro.
Brigar é bom, quando é saudável e por um motivo real. Monstros imaginários que nos acompanham desde que tinhamos cinco anos não pode causar uma briga depois que você já convive com ele há vinte anos. E, se você já conhece tanto o monstro do outro quanto conhece o outro, isso também não pode ser causa de briga, afinal, você escolheu o monstro também. É escolha!
Discutir é totalmente compreensível, se você compreende que é só para expor e não para mudar as ideias do outro. O outro não pode mudar, você o amou assim, se muda demais, o amor muda também... e pronto, vocês vão ter vinte e cinco anos de casados, umas cem brigas no currículo, contudo, aquela pessoa que está ali depois de vinte e cinco anos, não é a mesma com quem você se casou, então, o casamento sequer deveria ter valor quando isso é constatado.

Eu brigo e amo, e isso é tão natural que se eu não brigasse, seria como se eu não amasse, e, não amar é tão irreal.